PRESENTE 2011

O presente dado a si mesmo, ou recebido de alguém, marca uma data pessoal. No calendário de uma vida existem razões afetivas para datas serem marcadas e lembradas para sempre: aniversário, bodas, nascimento de um filho, formatura, bom negócio realizado, promoção no trabalho, chegada, partida, sorte grande, nova amizade, conquista, inverno ou verão inesquecível, um dia muito feliz, Natal, etc.
O texto que segue, publicado em 2004, tenta mostrar que pintura é o presente ideal para marcar e lembrar, em quase todas as oportunidades.
Entretanto, nunca adquira uma pintura sem ter sido conquistado por ela. Se não houver sedução, vivo entusiasmo pela obra, não leve. Não será bom para você, nem para a arte. Pintura não é como uma jóia que poderá descansar esquecida por um tempo no cofre. Estará sempre à vista, provocativa, lembrando alguém, uma ocasião, fica sempre presente.

PRESENTE SEMPRE PRESENTE.

Recebemos ao nascer dois presentes divinos, sem os quais o mundo não seria como ele é: um individual, a vida; outro social, a linguagem.
O maior presente dado ao homem, pelo homem, foi a democracia, experimentado primeiro, por breve período, na Grécia. O sucesso da democracia nos Estados Unidos (exemplo que em 1776 se espalhou pela terra e influenciou decisivamente a Revolução Francesa de 1789) é que nos deu o trono de todos os reis. A retribuição francesa foi significativa e de grandes dimensões: a estátua da “Liberdade guiando o povo”, feita em Paris e entregue em NY.
Os japoneses, muito delicados em gestos e arte, têm a tradição de retribuir um presente com outro de menor valor. Segundo um amigo, para que um dia o valor chegue a zero, só restando carinho, o presente ideal. Ainda que trocado através de um fio, carta ou internet.
Marylin Monroe cantou “Diamonds”, mas interpretou muito melhor “Parabéns a você querido presidente”. Diamantes realizam sonhos, mas é presente do qual pouco se desfruta. Passam a maior parte do tempo com outras jóias, num cofre apertado, escuro e alugado.
Quando há aflição, o melhor presente é o oportuno: quase sempre dinheiro; água para quem tem sede; pão para o faminto; camisinha na hora H; choque no enfartado; um reino por um cavalo.
O mais famoso presente desagradável foi o cavalo de Tróia, daí a expressão presente de grego. A lista desses presentes é grande como um elefante branco. Todo cuidado é pouco, um bom presente ontem, pode ser um fiasco hoje: caixa de charutos para quem parou de fumar; bebida alcoólica para AA novato; roupa apertada, de cor ou estilo inconveniente; doces para diabéticos...
As flores são sempre belas. Quem oferece um buquê sabe que na semana seguinte ele será trocado. Elas murcham em pouco tempo Já pintei milhares, nunca colhidas e arrumadas numa jarra: Flores pintadas são para sempre.
Quase todos os presentes são descartáveis e dizem pouco de quem dá. Raros são os que se incorporam ao cotidiano de quem recebe, valorizam com o tempo, podem ser herdados e, lembrando um momento agradável, uma conquista ou realização, está ao alcance dos olhos o tempo todo. Com a pintura é assim: presente que fica sempre presente.
O cidadão de bom gosto, interessado em dar um presente original precisa nadar através de um mar de comerciais fascinantes e resistir com personalidade e elegância. Vitorioso, merece oferecer para si mesmo, ou para alguém de quem goste muito, um presente para sempre: uma obra de arte.
Kleber Galvêas - pintor. Tel. 3244 7115 [email protected] novembro/ 2004

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