VAIDADE E ORGULHO
Arte e mídia são atividades complementares e nenhuma das duas existe sem público. A Arte não está na peça que o artista realizou (gritou Duchamp): é o tipo de relação que esta peça estabelece com o observador (convidado a ver, pela mídia, se a considerar notícia). É no momento do show (apreciação) que Arte se diferencia de artesanato, de peça publicitária, de virtuosismo, engenhosidade, ready-made, etc. Daí o interesse pelo feedback no vernissage, na primeira audição, estréia, lançamento de livro...
O artista que produz e, “vaidoso”, procura mostrar o seu trabalho para o maior número de pessoas, está cumprindo uma condição para que a Arte aconteça. A peça que permanece no ateliê fechado, fica no “vir a ser” Arte.
O zarolho que em terra de zarolhos, ao invés de sugerir óculos de correção para todos contribuírem, procura cegar os outros para ter a melhor visão e reinar, é crápula. Orgulhoso, na torre de marfim, com bandeira ao lado exibindo sua foto sorridente, parece dizer: “não vou à sua casa pra você não vir na minha”. Eu preciso e vou. Se não tiram o olho do computador enquanto estou perto, eu escrevo e envio.
A nossa mídia cultural consolidou na mente dos capixabas, o conceito de que a produção artística local é desinteressante, é quarta página em p/b, quarta categoria...
O que peço é uma longa empreitada de correção de curso, em benefício de todos. (No passado foi realizada, por breves períodos, por Mª Alice e Letícia Lindenberg, Paulo e Bob de Paula, Andréia Curry Carneiro, Glecy, Tadeu, Luciana Coelho e outros poucos). Reivindico uma mudança de filosofia de comando aos jornalistas informados e com disposição para aprender, aos que não se satisfazem com Peter Pan, e não comem sempre na mesma panelinha da redação. O certo é que quanto antes começar a mudar, mais fácil fica corrigir o curso suicida, deste caderno, do jornal.
Veiculado por e-mail para 5 mil endereços, e na coluna de O Leitor, de A Gazeta (trecho). O texto: “Mídia Cultural Pelega”, que pede mudanças na relação mídia/cultura local, recebeu apoios e informações complementares, entretanto todos exigiram tratamento confidencial.
Transcrevo o mais sóbrio e pertinente e-mail recebido, sem indicar publicamente a fonte, para mostrar que tem gente atenta, ainda calada:
“ Depois de você sou eu a vítima de notícias incorretas. O meu quadro X virou Y. Bobagens e bobagens são colocadas como se eu as tivesse dito, onde nouvelle vague e neo-realismo italiano são consideradas a mesma coisa que Holywood, ou seja, igualou-se os opostos. E olha que eu mandei release com tudo muito bem explicado! Portanto, conforme-se. Você não é o único.”
Sou assinante antigo e anunciante modesto de A Gazeta. Não tenho tido prazer em ler o Caderno II (veja hoje, domingo, 07/01/07: Peter Pan, The Police, Hitchcock, Grisham, Ivete Sangalo) sei de muitos que afirmam o mesmo. Tenho medo que este número de insatisfeitos não pare de crescer. Enquanto estiverem lendo alguma coisa que, mesmo de longe, os leve a considerar nossa existência, somos mais visitados, mais artistas, e continuamos como o equilibrista, que sabe (há quarenta anos) que o show não pode parar.
Pior que o cego que não quer ver, é aquele que gasta energia para tentar justificar descaminhos (ou para rotular alguém e coloca-lo num lugar na estante, titulado e espremido entre outros títulos) ao invés de utilizar sua capacidade na aprendizagem, mudança de comportamento: caminho edificante de paz, amor, desenvolvimento pessoal, social e também do lucro para sua empresa.

Kleber Galvêas – pintor tel. 3244 7115 [email protected] 01/07


ANTECEDENTES:
Quando o Tourinho lançou o livro “10 Desafios para a Gestão Pública no ES” achei um acontecimento da maior relevância. O chefe de reportagem da principal TV do ES abordar nossos problemas locais de forma objetiva me pareceu surpreendente e de grande interesse social. Li a meia página publicada em “política” de A Gazeta, domingo, 17/12. Infelizmente o foco da matéria foi o Tourinho e não sua obra. (Nossos jornalistas em geral fazem esta distorção. Quantas vezes, após realizar um trabalho que obteve apoio de vocês, na divulgação, ao realizar no mês seguinte algo diferente e tentar divulgar, ouvimos: “você já teve apoio no mês passado...”. Como se a noticia fosse o artista e não sua obra). No “Saiba Mais” desta matéria, tem: nome, nascimento, família, carreira. Nada sobre o livro e, principalmente, sobre o lançamento.
Na quarta-feira, não sabendo onde ficava o restaurante Palladium (palco do lançamento), li A Gazeta para obter informações. Não havia uma linha. Fui à peixaria e comprei A Tribuna: nada. Procurei na Telelista 2006: nada. Liguei para a Telemar e me deram um número de telefone que não atendeu nas 5 tentativas que fiz ao longo da tarde. Liguei para o jornalismo da TV Gazeta e consegui a informação imprecisa de que era perto da Igreja Santa Rita. Se um colega competente, elegante e estimado, que apresenta um trabalho original, tem este tratamento, imagine os simples.
No dia do lançamento do livro do Tourinho (17/12), a capa do Caderno Dois foi “Abaixou a Poeira? Axé music enfrenta queda de público...” Um equivoco (preposteração), se considerarmos que “Academia de balé Lenira Borges completa 45 anos”, apareceu na metade da última página. Lenira formou milhares de meninas e meninos ao longo destes 45 anos. O evento contou com a participação de 230 bailarinas da academia. Se fosse feito um bom texto sobre o espetáculo, histórico, retrospectivo, quantos jornais a mais seriam vendidos? Quantos seriam guardados com cuidado por anos e anos? Que grau se empatia o veiculo alcançaria?
O que motivou o meu texto, Mídia Cultural Pelega, dito “pesado”, foi a matéria do dia seguinte (18/12) “O exercício do olhar”; uma coleção de impropriedades, coroadas com a legenda da última foto “... construções inacabadas, numa referência ao crescimento urbano acelerado”. Tudo bem, cada um faz o que é capaz e continua assinando o jornal quem quer. Esta submissão, incondicionalmente pelega, aos eventos do governo (MAES), ignorando o fator notícia e o disposto no Artigo 215 da nossa Constituição, tem trazido grande prejuízo para os agitadores culturais independentes (classificados automaticamente como secundários) e para a própria Rede Gazeta, que publica, gratuitamente, o que por Lei deveria ser pago pelo governo. Esta é a essência da nossa crítica construtiva.
Neste contexto, meu artigo, documentado e sem palavrões, foi até leve, se considerarmos que quarenta anos de atividade pública minha (assim como o livro do Tourinho e a Academia da Lenira) não tiveram peso para determinar maior atenção. Isto destoa da tradição jornalística que trabalhos capixabas mereceram de outros editores.
Não sendo profissional da escrita, me coloco a sua disposição para mais esclarecimentos. Neste ano novo, desejo o melhor para você e A Gazeta, bem como, uma correção de curso para o Caderno Dois (que se usem lentes convergentes para enxergar bem o que está perto).