TRINTA ANOS DO ATELIÊ KLEBER GALVÊAS - (veja aqui 52 telas da exposição).

IMPRESSIONISMO ----------------------------------------------------------------------------

1 - "Barrinha" 160 x 120cm.

ABERTURAS:
19 de abril – abstrato
19 de maio – expressionismo
19 de junho – impressionismo
Simultaneamente faremos exposições virtuais das três etapas da exposição.

EXPOSIÇÃO: 30 ANOS DO ATELIÊ KLEBER GALVÊAS
PERÍODO: 19 de abril à 19 de julho de 2009
HORÁRIO: das 9 às 18 horas – TODOS OS DIAS.
ENDEREÇO: Rua. Antenor Pinto Carneiro, 66. Barra do Jucu, Vila Velha, ES.
TEL. (27) 3244 7115 [email protected]

No dia 19 de abril de 1979, às 9 horas da manhã, abri a porta do meu ateliê ao público. As telas ganharam paredes iluminadas de fácil acesso e passaram a ser expostas permanentemente.
Durante estes 30 anos dividi o espaço com várias exposições de convidados. Alguns artistas capixabas, nacionais e de outros países, nos apresentaram suas obras pela primeira vez. Mostramos resultados de pesquisas, peças de coleções particulares e fatos da nossa história. Além de pinturas, esculturas, desenhos, gravuras e artesanatos, houve música (clássica, popular e folclórica), teatro, literatura, instalação, performance, happining, palestra, dança, culinária e astronomia.
Realizamos a restauração de dezenas de obras de Homero Massena, Levino Fanzeres e de outros artistas, de épocas e procedências diferentes.
O ateliê, independente e auto-sustentável, já recebeu mais de 1 milhão de visitas. Muitas escolas, de todos os graus estiveram aqui, e o nosso site www. galveas.com é acessado em 33 países, além de todo o Brasil.
Agradecimento maior faço à minha mãe, pintora frustrada com o nascimento de 6 filhos homens em 8 anos. Ela me cedeu o espaço físico na Prainha, Vila Velha, onde as idéias ganharam corpo, nasceu e cresceu o ateliê, até aos 22 anos. Em 2001 o transferi para a Barra do Jucu e aqui permanece.
São muitos os agradecimentos. Sempre os faço pessoalmente, da melhor forma.
Para marcar esta data, pintei uma coleção ao longo dos últimos 3 anos. A mostra acontecerá em 3 etapas, serão três aberturas para três caminhos (estilos) diferentes, por onde sempre andei. Cada segmento ficará exposto por 1 mês.

Veja o texto “MULTILATERALIDADE NA ARTE ATUAL”, no site www.galveas.com
Esperamos a sua visita e pedimos apoio na divulgação deste programa.
Kleber Galvêas, pintor.

2 - "Caminho da Floresta".

3 - "Barrão".

4 - "O Frade e a Freira".

5 - "Itabira".

6 - "Anchieta".

7 - "Caminho para a Barrinha".

8 - "Convento 1".

9 - "Convento 2 ".

10 - "Close - O Frade e a Freira".

11 - "Montanhas Capixabas".

12 - "Caminho da Roça".

13 - "Foz do Jucu".

14 - "Casa da Cultura".

15 - "Ontem e Hoje".

16 - "Setiba".

17 - "Solidão do Discípulo".

18 - "Barrinha".

 

EXPRESSIONISMO -----------------------------------------------------------------------------

1 - Gauguin e Cézanne vizitam Rouault na Barra do Jucu.

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2 - Davi e Golias. (120 x 100cm)


3 - Passos de Anchieta.

4 - Vida.

5 - Conversas.

6 - Floresta com cipós.



7 - Espelho meu...

8 - Pandora.

9 - Minhas Flores 01.

10 - Minhas Flores 02.

11 - Descida ecológica do Rio Jucu.

12 - Natureza Morta.

OBS: Estas duas últimas telas, em preto e branco, foram feitas com materias reciclados. O fundo é um envelope fotográfico pelo avesso, a tinta é a de pintar paredes e o pincel usado foi encontrado no lixo. Melhorei o pincel aparando-o com uma tesoura, enfiei na lata de tinta e borrei o papel que ia para o lixo. Este trabalho é sempre mostrado quando recebemos a visita de escolas. Falamos para as crianças não esperarem o pincel importado nem as tintas francesas, mas exercitiarem a criativadade a partir dos materiais próximos e comuns.

 

ABSTRAÇÕES --------------------------------------------------------------------------------------------------------

Abstração 01 - (120 x 100cm)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entrevista concedida a Tiago Zanoli, caderno2. A Gazeta - ES. Dia 22 de abril de 2009.

 

Não existe amor de um só. A natureza da arte é semelhante a do amor, um tipo de relação que se estabelece entre a obra oferecida pelo artista e o observador. Na verdade fazemos obras “para” arte e não obras “de” arte. O trabalho executado com esmero é dito “virtuoso”, será ou não uma obra de arte, só quando for apreciado. Se não for mostrado, ficará no “vir a ser”. Não existe arte sem público.
Este primeiro segmento da exposição comemorativa dos 30 anos do ateliê, contempla 31 telas abstratas. O meu mestre, nesta escola, foi o pintor português Peniche Galveias. Dois trabalhos de sua autoria estão expostos como referência e homenagem.
Minha cor favorita, o vermelho, predomina em quase todas as telas. O desenho informal, feito com pincel é aparente e foi preenchido com cores ricas em nuances, obtidas pelo processo das veladuras (sobreposição de véus de tintas diluídas). O contraste entre cores complementares (vermelho x verde, amarelo x violeta, azul x laranja) foi bastante explorado para fazer vibrar o colorido e atrair com força o olhar.
Todas as telas, desta exposição, são laváveis. Pesquisa desenvolvida, com sucesso, no ateliê, ao longo de 20 anos possibilita que, limpas, tenham sempre um bom aspecto e mantenham as cores originais em nosso ambiente, saturado com poeira densa e viscosa, de difícil remoção com o espanador.


1) Em seu site, há um breve resumo contando a história do ateliê. Mas eu gostaria de me aprofundar em mais detalhes, resgatar um pouco da história do ateliê, desde quando tudo começou, a partir do momento em que sua mãe lhe cedeu o espaço físico na Prainha. Além disso, gostaria que você destacasse alguns dos artistas locais, nacionais e internacionais que passaram pelo ateliê, comentando a importância de alguns desses artistas e de suas obras.


1- Minha primeira exposição foi no I Salão Nacional de Artes Plásticas do ES, 1966. Como não havia galeria de arte no estado, usávamos espaços alternativos e, neste mesmo ano, expus com Homero Massena na cobertura do Torium Hotel, em Guarapari. Os anos de 1967 e 68 morei em Lisboa e Londres, de início estudei medicina, mas logo troquei pelo curso de Gravura da SNGP- Fundação Gulbenkian. Na volta encontrei o MAM do ES, que havia promovido o Salão Nacional, fechando as portas, sem ter conquistado sede própria, em 5 anos de tentativas.
No início da década de 1970, foram abertas as galerias pioneiras: Capela Santa Luzia e Homero Massena, ambas na cidade alta. Expus nos dois espaços que me confiscaram uma obra no final das exposições, o que me afastou desse circuito. Argumentei que se os gestores desses espaços públicos recebiam salário do governo, a faxineira e o segurança eram pagos, porque o artista, razão de ser do espaço, havia de pagar por sua exposição?
Nessa época, os cadernos de cultura dos jornais locais, muito mais robustos do que hoje, tinham colunas especificas voltadas para as diferentes artes. A carência de espaços e eventos limitava a atuação desses jornalistas, especialmente o de artes plásticas.
Neste tempo o governo estava construindo as Sedes Comunitárias nos bairros. Incentivado por Paulo de Paula, que havia organizado uma exposição minha na Galeria da Universidade Makenzie, em São Paulo, expus na Sede Comunitária da Barra do Jucu (1978).
Como persistisse a carência de espaços, apoiados por Carlos Chenier (coluna de artes plásticas) e Darly Santos (coluna de esportes “Mickey”) ambos do jornal A Gazeta, junto com Silvio Baiano e De Paiva, abrimos o Centro de Artes da Barra do Jucu, numa casa onde funcionou uma boite. Embora muito ativo e revelando talentos da terra, a vida do nosso Centro de Artes foi breve.
Em 1979 resolvi abrir as portas do meu ateliê, usando como espaço as salas da frente da casa da minha mãe, na Prainha, que começava a se esvaziar com os casamentos dos meus irmãos. Em seguida minha mãe mudou-se para um apartamento na Praia da Costa, liberando toda a casa.
Quase todos os artistas locais, que estão na ativa, expuseram no ateliê, e resgatamos a obra de mestres do passado. Mostramos as únicas cerâmicas conhecidas de Mãe Ana, que dá nome a uma galeria do estado e criamos o Museu do Barro com cerca de 2 mil peças, muitas do Jequitinhonha. Fizemos individuais de vários colegas e coletivas com mais de cem participantes.
Entre os nacionais exibimos obras de Henrique Cavalleiro, Elizeu e Yvonne Visconti, Pancetti, Manabu Mabe, De Bonna, Levino Fanzeres, irmãos Bernardelli...
Extrangeiros: Manoel Cargaleiro, Navarro Hogan, Peniche Galveias, Laslo Burjan, Stanislau e Vanda Warchalowski (falecidos, serão homenageados com uma exposição em Varsóvia, maio próximo). Pinturas sacras portuguesas e litografias inglesas dos séc. XVIII, XIX e XX., cerâmica, faiança, porcelanas de vários países, e até tijolo da Babilônia com inscrições cuneiformes, foram vistos no ateliê.
A importância destas exposições se traduz na formação de público, conhecimento de diferentes escolas, estilos e técnicas usadas em artes plásticas. Como dizia Massena: “Somos como os imigrantes em terra inculta. Eu desbravei, vocês estão plantando, futuras gerações irão colher e produzir em melhores condições”. Oxalá! O fato é que continuamos plantando.


2) O espaço também abriu suas portas para outras linguagens: música, teatro, dança, performance, happening, culinária e literatura. Você poderia comentar um pouco sobre essa pluralidade artística? Em que momento você percebeu que o ateliê poderia ir além das artes plásticas e abranger um universo muito mais amplo, de mobilização cultural? Desses outros campos artísticos, que presenças você destaca como importantes e marcantes na história do ateliê? Por quê?


2-Com a mudança da minha mãe passei a usar todo o espaço da residencia, jardim e quintal (700 m2). Diversificamos as atividades para conquistar mais público: música de câmera e conjunto de cordas da Orquestra Filarmônica do ES; música e dança folclórica alemã e italiana; o Kalangocongo (pré Banda Casaca); Banda de Congo da Barra do Jucu; música e quadrilha junina; violão com Paulo e Paulinho Serapião, fizeram parte da nossa programação.
Teatro experimental, leitura de peças capixabas inéditas e debates. Literatura: produção e lançamento de livros, leitura de trechos e debates, exposição de livros capixabas raros e homenagem aos 400 anos de Dom Quixote. Performance: “Praça é Praça, não?” tentando impedir a ocupação da praça com prédios públicos. Happening: “A Vale, a Vaca e a Pena”, onde na platéia estavam Eustáquio Palhares, Terezinha e Abdo Chequer. Culinária: moqueca sêca, bobó de fruta-pão, chocolate e codornas. Astronomia: noites de observação das estrelas e constelações, no equinócios e soltícios.


3) É inevitável dissociar o seu trabalho artístico de um engajamento que assume várias frentes, inclusive pela preservação do meio ambiente. E, nessa linha, destaca-se o projeto A Vale, A Vaca e A Pena. Gostaria que você fizesse uma autoavaliação sobre essa experiência. Que tipo de impacto causou? Como o público, as autoridades e a própria Vale reagiram a essa produção, que revela a nossa poluição atmosférica?


3- A idéia, o nome, a primeira desapropriação e o primeiro tombamento de Jacaranema, nasceram no ateliê. Aqui fizemos várias ações contra a ocupação irracional das praças da cidade, da Praia da Costa, Itaparica, e do entorno da Barra do Jucu. O projeto “ A Vale, a Vaca e a Pena” também exposto fora do ateliê, possibilitou que em mostra, durante audiência pública na Câmara Municipal de Vitória, a empresa que vinha apontando a construção civil, nossas ruas e os automóveis, como responsáveis pela poluição atmosférica na Grande Vitória, admitisse a sua expressiva contribuição. A evidência do ferro na nossa poeira, demonstrada com a experiência do imã, que todos podem fazer em suas casas, foi irrefutável. Este projeto vem se desenvolvendo há 13 anos, sempre no mesmo período (17 de março à 6 de maio) É sempre um “gancho” e oportunidade para refletirmos sobre este grave problema.


4) Por falar em Vale, você é bastante crítico em relação ao Museu Vale e à maneira como é administrado, aos critérios de curadoria para as exposições que são inauguradas. Já li artigos seus nos quais manifesta-se contra o pouco espaço que aberto para artistas locais — muito embora tenha demonstrado sua satisfação quando o museu abriu as portas para o Hilal. Enfim, ao longo dos últimos anos, você notou mudanças para melhor no Museu Vale? Ele tem atendido melhor à cultura e aos artistas locais? O que ainda precisa ser feito para melhorar e valorizar a cultura local?


4-Como membro do Conselho Estadual de Cultura, redigi a proposta de tombamento do prédio onde esta instalado o Museu Ferroviário e junto com o colega Fernando Achiamé, sugerimos à Vale, a criação do Museu Ferroviário. Enquanto Museu Ferroviário, só aplausos. Sua galeria de exposições temporárias, por 10 anos vedada à capixabas, é o problema. Os coquetéis feitos com dinheiro público (abatimento IR) mas restrito a convidados da empresa, e a qualidade do que exibem, não justifica o investimento público, pois a produção local permanece carente e esquecida. Antes da exposição do Hilal, marcando 10 anos do museu, só a dedicada a Homero Massena e Fanzeres, me levou ao museu. Entretando fiquei decepcionado. Fiz registro no livro da exposição e publiquei um artigo (“O museu está nu” - www. galveas. com) criticando a curadoria, que usou as obras dos mestres como escada para um fotografo estreante, com quem dividiram o espaço.
Se não usassem dinheiro público não haveria protesto. Cada um faz o que quiser com seu dinheiro.
Agora que o estado deu um passo importante, recuperando o Fundo de Cultura, falta reformular o Conselho de Cultura, devolver suas funções e prestigiá-lo


5) É notório também o seu inconformismo em relação à mídia e ao meio acadêmico, que na sua opinião demonstra pouco interesse pela riqueza cultural do Estado — como diria o texto em seu site: "com nossa intelectualidade mais interessada nos outros, do que em aprender, pesquisar, conhecer e divulgar o nosso ambiente". Gostaria que você falasse com mais detalhes sobre sua luta nesse sentido, sobretudo o trabalho de resgate e preservação da memória de nomes como Homero Massena e Levino Fanzeres. Que conquistas você já obteve nessa luta? O que ainda falta conquistar?


5-Em 1974, quando fiz um levantamento em residências, para uma retrospectiva de Homero Massena no Teatro Carlos Gomes, encontrei telas suas rasgadas em salas do Palácio Anchieta, em quarto de empregada, marcada de bolas em parede onde treinavam tênis e até tapando buraco de galinheiro. O Fanzeres era um “ilustre desconhecido”, principalmente em Cachoeiro, sua cidade natal. Hoje são mais conhecidos e respeitados.
Nossa mídia parece usar sempre óculos para miopia. Enxerga muito bem o que está longe, mas vê borrado o que está próximo. Nós não cobramos compromisso, mas atenção e recuperação de espaço e dignidade. Hoje a cultura, com muito menos espaço, aparece como coadjuvante da mídia esportiva, religiosa e de entretenimento.
Nossa universidade, fechada em si mesma, posa como formadora de artistas, quando na verdade oferece um curso técnico, que com propriedade atende a demanda da sociedade que a sustenta, formando: publicitários, decoradores, desenhistas e professores. As aulas de pintura se restringem a dois períodos de poucos meses.
As escolas fundamentais têm educação artística como matéria curricular de todas as séries, mas não há um museu com exposição permanente, onde o professor possa sugerir que os alunos vejam obras originais a que faça referência na sala de aula. Como distinguir um pássaro de um morcego se não há luz? Na escuridão da ignorância, “todos os gatos são pardos. Precisamos de um museu que seja ponto de referência, estudo, divulgação, valorização e preservação de obras de arte. Fomos os primeiros nas Américas a expor uma pintura ao público (1558), é capixaba a pintura mais antiga feita no Brasil, seremos os últimos a ter um museu?


6) O que falta para o capixaba poder valorizar mais o que é produzido dentro de seu próprio território? Por que não enxergamos nossa riqueza cultural e artística? É um problema da mídia, que divulga pouco? Ou a própria população não demonstra interesse pela arte, pela cultura, pelo conhecimento, pela inteligência — preferindo muito mais essa cultura descartável, que é vendida no Faustão e em programas do gênero, que prefere músicas que falam de bunda, telenovelas, Big Brother e afins?


6- Só lutamos pelo que amamos e só amamos o que conhecemos. O estado não cumpre a Constituição (Art. 215) Só há pouco tempo, ainda assim timidamente a mídia cultural identifica como notícia as realizações locais. O público desinformado e sem liderança, se deixa seduzir pelo exótico e por bezerros de ouro, que agitando guisos fazem alarde.
Venham a Terra Vermelha ou a qualquer lugar do nosso estado. É só procurar que artistas anônimos, esquecidos e frustrados, são encontrados em todos os cantos. Nosso maior patrimônio, despresado por nós mesmos, é nosso povo, criativo e comunicativo.
A política de recuperação americana (New Deal) após a depressão, contemplou também as artes. Rosevelt financiou 5 mil artistas nacionais que produziram, ao longo de 10 anos, 570 mil peças, incorporadas ao acervo público. A qualidade de vida, auto-estima e a identidade do povo americano foram reforçadas com essa ação.


7) Houve um momento de sua vida em que tentou abandonar a pintura, chegou a cursar Economia e até deu aulas em escolas públicas. O que lhe afastou da pintura, da arte, nesse período? Por que resolveu arriscar-se em outras frentes? O que lhe trouxe de volta para a pintura? No período em que se manteve afastado, foi tomado por que tipo de sensações?
8) Você recebeu de sua mãe as primeiras orientações sobre pintura. Gostaria de resgatar mais detalhes sobre essa memória. Como foram seus primeiros anos dedicando-se à pintura e como era a relação entre você e sua mãe no campo da arte? De quem partiu a iniciativa: ela quis lhe ensinar ou foi você quem se interessou e pediu a ela que lhe ensinasse?


7- 8 - Em vários momentos tentei esquecer a pintura. Estudei medicina, sou bacharel em Economia e licenciado com professor de Ciências. Parecia impossível viver de pintura em certos momentos, mas nunca me afastei. Se não pintava, escrevia. Observava o Massena, que não tinha casa, nem carro. Se o governo não lhe concedesse uma pensão “ por mérito” de 3 salários mínimos, teria produzido menos e passado muitas dificuldades nos últimos anos de vida.
O que me manteve pintor foi a certeza da vocação e a impressão de que poderia ser um cidadão mais util pintando e pensando nossa cultura. A sensação que tenho é que não sou capaz de realizar 10% do que poderia. Tenho inveja dos vereadores que têm dois ou três assessores e todas as facilidades, além do salário.


9) Aliás, em seu site, você se refere à sua mãe como "pintora frustrada". Por quê? O que a "impediu" de dedicar-se à carreira de pintora?


9-Fui uma criança muito agitada. Dopado sistematicamente, por orientação medica, com “Luminaletas” (fenil-barbiturico). Ainda assim era “encapetado”. Minha mãe costumava negociar tréguas me oferecendo material para desenhar e elogiando meus rabiscos. Ela havia estudado pintura na Escola do Carmo com a irmã Tereza (tenho 3 telas dela, feitas enquanto solteira) logo que casou teve 6 filhos homens em 8 anos. Quando meus pais se separaram o caçula tinha 3 anos e ela assumindo a chefia da família, esqueceu a vocação e me levou aos cuidados artísticos do seu amigo Homero Massena. Aos 19 anos (1967) me incentivou a partir para estudar em Lisboa, e foi fundamental na abertura do meu ateliê, há 30 anos. Quando aposentou, como Delegada do Ministério da Fazenda administrou, sem remuneração, o ateliê, em sua faze mais produtiva. Acredito que essa dedicação e prazer com que colaborava, compensava a sua frustração em não mais pintar.


10) Fazendo uma autoavaliação de todos os seus anos de carreira como artista e ativista (político, social, cultural, ambiental etc.), qual seria para você a sua maior realização? E qual foi a sua experiência mais marcante ao longo desses anos?


10-A minha maior realização é estar aqui, positivo e operante, respondendo as suas perguntas. Inaugurando uma exposição com obras atuais.
A experiência mais marcante que vivi no ateliê, aconteceu durante a Festa da Penha, de 1987. De repente entraram e se espalharam pelo ateliê, uns 10 meninos e meninas de rua, que viviam na Prainha. Eu gritei e chamei todos para perto de mim, dizendo: se vocês se espalharem, como posso vigiá-los e mostrar a exposição? Eles me encararam de uma maneira simpática. Juntos percorremos as salas, dei explicações e respondi a muitas perguntas. Quase todos ficaram visivelmente emocionados e na saída ganhei até beijinhos. Poucas vezes atendi um grupo que fizesse perguntas tão inteligentes e que permanecesse, com viva emoção por mais de uma hora, admirando pinturas.
Neste dia percebi que havia recebido um grupo de super dotados. Eram psicólogos, diplomatas, oradores talentosos, advogados habilidosos, sobrevivendo num ambiente francamente hostil, sem perder a sensibilidade e a ternura, ausentes em tantos privilegiados.

 

 

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