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23 DE MAIO
Moleque da Prainha de Vila Velha, tinha sete anos em 1955, e daí
em diante acompanhei as comemorações da data maior do
capixaba: o aniversário da colonização do solo
espírito-santense, iniciada por Vasco Fernandes Coutinho, em
23 de maio de 1535.
As alvoradas festivas aconteciam diante do monumento que chamávamos
de “pirulito”, pertinho da minha casa. Acordado com salva
de canhões à beira mar corria para a pracinha ou aguardava
empoleirado na janela, o desfile das autoridades.
Na década de 1950, seguiam a pé pela Rua Luciano das Neves,
da Prainha para o palanque armado em frente à prefeitura, que
foi demolida. A nobre comitiva acompanhava a banda do 38º BI, que
arrepiava com dobrados bem ensaiados. Regida pelo maestro Benício
Cavalcante era muito apreciada na cidade. Nas noites de quintas-feiras
fazia retretas no coreto (demolido) que existia junto ao obelisco, marco
da colonização.
Na década de 1960, a alvorada musical com a banda marcial da
Marinha, bem maior e espalhafatosa (características do estilo)
substituiu a sonora e virtuosa banda de música do exército,
e as autoridades passaram a desfilar de carro.
A cerimônia acontecia junto ao monumento inaugurado em 1935, para
marcar os 400 anos da chegada do Donatário Vasco Coutinho. Singelo,
era uma pequena plataforma circular de 1,20 m. de altura com escada
frontal. Do seu centro emergia uma coluna piramidal, semelhante às
“agulhas de Cleópatra”, existentes em diversas capitais
pelo mundo. Na base da coluna havia uma urna fechada com placa de bronze,
presa por quatro parafusos grandes.
Naquele tempo crianças brincavam sozinhas na praça, mesmo
à noite. Com uma moeda, usada como chave de fenda, a molecada
mais velha abria a urna e dela retirava o crânio de Vasco Coutinho,
para assustar os menores. O crânio e alguns ossos do Donatário
foram depositados ali, depois de vagar 30 anos por armários da
prefeitura. Estavam sepultados no interior da nossa primeira igreja,
localizada à beira mar, demolida no início do séc.
XX, para ser feito o traçado das atuais ruas de Vila Velha.
Um dia notamos o desaparecimento da relíquia. A criançada
ficou alvoroçada e começou a investigar. Descobrimos que
o irmão mais velho de um dos moleques havia passado no vestibular
de medicina. Para estudar os ossos do crânio, ele encheu o espaço
do cérebro com feijão e umedeceu as sementes: quando elas
germinaram aumentaram de volume, separando ossos soldados de maneira
muito eficiente pela Natureza.
No início da década de 1970, a placa da urna desapareceu.
Ela ficou aberta, servindo de depósito para latas e trapos dos
lavadores de carro, até o monumento ser restaurado e transformado
num relicário. No dia 23 de maio de 1993, em cerimônia
solene, com a presença do governador, foram colocados na urna:
mensagens das autoridades e populares; jornais do dia; pautas dos noticiários
das TVs e Rádios; livros da nossa história; cédulas
e moedas circulantes; amostras de água das nossas praias, de
todos os mananciais, rios, córregos do município e da
Cesan; amostras do ar; areia das praias e uma coleção
de desenhos escolares. Foi lacrada com solda e cimento. A nova placa
informava que só deveria ser aberta após 50 anos; mas
o relicário não resistiu a uma década: o monumento
foi inteiramente demolido pela prefeitura em 2002. Não sobrou
vestígio do alicerce.
No séc. XXI, adultos tomam o lugar das crianças irresponsáveis
do século passado, apagam vestígios da nossa história,
demolindo nossa identidade.
Kleber Galvêas, pintor. Tel. (27) 3244 7115 www.galveas.com atelie@galveas.com
maio/2010
HERÓIS E BANDIDOS NAS RUAS
Jorge de Menezes e Castelo Branco são nomes de extensas ruas
que vão da Praia da Costa ao Centro de Vila Velha e a Jaburuna.
Na Prainha cruzam a Rua Luciano das Neves, passando à esquerda
e à da direita do meu antigo ateliê. Neste trecho são
paralelas a Rua Vasco Coutinho, estreita e curta.
Dois dos pioneiros da nossa colonização, os das ruas mais
extensas, tiveram vida de heróis e bandidos. Viveram em Vila
Velha, de 1535 a 1555, nos deixando lembranças dos primórdios
da globalização.
Vasco Fernandes Coutinho chegou ao Espírito Santo para tomar
posse da sua Capitania, mirando no “alvo mestre” da costa
atlântica meridional da América do Sul (Mestre Álvaro).
Guiou a nau “Groria” no sentido desta montanha, a mais alta
junto ao mar no Brasil, portanto avistada primeiro por quem se aproxima
de nós pelo Atlântico. Aqui embicou em uma ampla baia que
chamou de Espírito Santo. Escolheu a margem sul para desembarcar
e se estabelecer em pequena praia entre dois gnaisses megalíticos.
Onde desaguava um ribeiro cristalino, daí o nome Praia do Ribeiro,
bairro Praia da Costa, Vila Velha. Era dia 23 de maio de 1535, domingo,
com céu azul, branco, e púrpura ou rosa (cores da nossa
bandeira), na aurora e no crepúsculo durante o outono.
Antes de pisar em terra, o experiente explorador “tocou a campainha”
dando a esmo tiros de canhão. Os índios se aproximaram,
e o herói de Málaca, Goa e Alcaide-mor de Ormuz, percebeu
que a situação aqui era muito diferente da que encontrara
na África, Arábia, Índia e Indonésia. Não
havia embrião de atividade comercial local que propiciasse trocas
com a metrópole, fomentando o desenvolvimento da Capitania.
Entre os 60 homens que acompanharam Vasco Coutinho nesta empreitada,
destaco D. Jorge de Menezes, da alta nobreza portuguesa. Este fidalgo
estava entre os exploradores mais famosos e cobiçados no ocidente
pela Holanda, Inglaterra, França e Espanha. Foi ele quem descobriu
a Nova-Guiné, segunda maior ilha do mundo. Herói de guerra,
já havia perdido a mão direita em batalha, quando foi
nomeado Senhor de Ternate, ilha do arquipélago das Molucas (Indonésia),
a maior produtora de cravo-da-índia no séc. XVI. O porto
e a posição estratégica de Ternate, fez dela o
principal entreposto no oriente, das especiarias ditas das Índias.
O lugar enriqueceu e seu sultão tornou-se o mais poderoso de
toda Indonésia.
Jorge de Menezes, espírito prepotente e belicoso, logo criou
atrito com os nativos de Ternate. Desterrou o sultão com toda
a família, enviando-os para a longínqua Goa, província
portuguesa na Índia. Como os chefes tribais demonstrassem descontentamento,
convidou-os para uma reunião em sua fortaleza, e todos foram
mortos.
Como conseqüência desse ato covarde, portugueses passaram
a ser vistos com total desconfiança na Ásia. O prejuízo
para a expansão do Império Português, decorrente
dessa ação criminosa, irritou profundamente D. João
III. O Rei mandou prender o fidalgo, que levado à corte foi condenado
ao degredo perpétuo no Brasil.
Quando Vasco Coutinho voltou a Portugal, em busca de recursos para desenvolver
a sua Capitania, julgando o degredado recuperado, após mais de
uma década de castigo, entregou-lhe o governo. Os desatinos do
famoso explorador guerreiro contra os índios provocaram forte
reação, culminando com o seu assassinato. Dois meses depois,
o do seu substituto, também fidalgo degredado, D. Simão
Castelo Branco.
Kleber Galvêas, pintor. Tel. (27) 3244 7115 atelie@galveas.com
www.galveas.com maio/2010.
Robério Martins: Procura-se
Em 23 de maio de 1535, Vasco Fernandes Coutinho, chega aqui na Prainha
de Vila Velha, local que décadas depois receberia o nome de Praia
de Araribóia. Foi daqui que o índio partiu, para ajudar
os portugueses a “expulsar” os franceses, aliados dos Tamoyos,
da Ilha de Villegagnon, Baia de Guanabara.
Esta cena está representada na maior tela pintada que existe
no E. Santo, “A PARTIDA DE ARARIBÓIA”. Fica na Assembléia
Legislativa e seu autor Levino Fanzeres, o mais famoso pintor capixaba,
nasceu em Cachoeiro de Itapemirim. A paisagem que compõe a cena,
representada nessa tela, mostra perfeitamente os contornos da Prainha.
Anos depois, com a ocupação urbana, cada trecho da Prainha
passou a ser conhecido por um nome próprio: Ponta da Uxaria,
Praia da Timbeba, Inhoá, Maria Catoré; os pesqueiros:
Queixo do Burro, Baixas, Oratório, Baliza, Purgatório,
Ilha da Forca. Neste cenário foi executado por enforcamento Robério
Martins, em novembro de 1555. Adelfo Poli Monjardim, descreve a execução
num artigo publicado em “O MUNICÍPIO”, nº15,
pág. 10, 23 de Maio de 1935. Explica que o motivo da condenação
foi a morte de D. Jorge de Menezes, e meses depois, a de D. Simão
Castelo Branco. Na ausência de Vasco Coutinho, em viagem à
Lisboa, Robério Martins levantou os índios contra os dois
fidalgos portugueses degredados, que comandavam a Capitania.
Desta introdução, podemos tirar algumas conclusões
e conhecer melhor a nossa história. Nossa formação
foi diferente, o sangue dos nossos índios circula nas nossas
veias. Eu tenho uma parcela, e é só olharmos um grupo
de capixabas, para reconhecermos traços dos nossos antepassados.
Acredito que quem insiste em contar a história capixaba falando
em extermínio, não pesquisou, apenas copia a história
de outros lugares da América, ou quer forjar um pedigree puro
sangue.
Araribóia e seus bravos, foram requisitados para a batalha “naval”
na Guanabara, exatamente porque eram bons nadadores e exímios
canoeiros, e isso foi decisivo. O militar português, Salvador
Correia de Sá, governador do Rio de Janeiro, sobrinho de Mem
de Sá, foi salvo a nado por Araribóia, após um
naufrágio. Portanto não faria o menor sentido mudar a
capital para uma ilha contígua ao continente, para se defender
dos índios.
As revoltas contra D. Jorge de Menezes e D. Simão Castelo Branco
foram comandadas por um degredado português, Robério Martins.
Longe de ser uma revolta indígena, eram os primeiros brasileiros
enfrentando a corrupção no poder estabelecido. Embora
sejam nomes de rua na Prainha, a história aponta os dois substitutos
do Donatário, como maus governantes.
A poesia de Antonino Moreno – 1935, “A ENSEADA DE VILA VELHA”,
em que descreve o cenário da Prainha, diz no 4º verso:
“A oeste de seu seio – oculta embora, -
jaz a ILHA DA FORCA, onde eram outrora,
punidos, pelas leis, os delinquentes...
No cimo de seu dorso alcantilado,
foi Robério Martins estrangulado...
Talvez que deste solo um TIRADENTES!....”
Página esquecida dos primórdios da nossa história,
que deve ser mais pesquisada.
Nossa formação foi diferente graças à diversos
fatores, entre esses, talvez o cultural, fez melhor a diferença.
Por influência do principal líder daquele tempo, Pe. José
de Anchieta, filho de um nobre Basco com uma índia de Tenerife,
Canárias, aconteceu a miscigenação.
Não existe registro de um importante guerreiro índio local;
de heróis portugueses ou brasileiros, entre os pioneiros; de
praças de batalhas , excluindo o Cricaré no extremo norte;
nenhuma vila foi destruída e nossas defesas estavam voltadas
para o mar, preocupados com: franceses, ingleses e holandeses; nossos
“fortes” avançados no interior, eram guarnecidos
por 2 ou 3 índios pedestres, o trânsito sempre foi regular.
Frei Brás Lourenço, trouxe do Rio de Janeiro para o Espírito
Santo, o primeiro contingente expressivo de famílias de colonos.
Não eram europeus, mas índios Temiminós, chefiados
por Maracaiaguaçu, pai de Araribóia.
Criticamos os livros didáticos de história, por privilegiar
os feitos e heróis da guerra, sobre as realizações
culturais. Porque prosseguir na imitação se a nossa história
é muito mais interessante?
O Capixaba é fruto de um amor oportuno. Em 1500, viviam aqui
índios Tupis espremidos entre os Goytacazes, do norte do Rio
de Janeiro, Pataxós do sul da Bahia e Aimorés ou Botocudos
do interior. Tribos Tapuias, canibais, muito primitivas em relação
aos Tupis. Nossos índios, isolados dos outros Tupis, vinham sendo
literalmente devorados, ao norte, no sul e a oeste. Uma aliança,
a esperança de salvação, chegou do mar. Assim a
colonização começou aqui, quase em paz, e com muitas
luas de mel.
Fim triste reservamos agora, no séc. XX, para o cenário
desse idílio, aterramos a Prainha, degradamos o nosso meio ambiente
e a cultura empírica dos nossos antepassados, desprezando seus
conhecimentos.
Gratifica-se a quem encontrar Robério Martins, vivo ou morto
na nossa história. Pistas foram deixadas aqui.
O que certamente não vamos encontrar na nossa história,
são Rosas e Jacksons. O primeiro, eleito presidente da Argentina
por exterminar índios, empurrando os poucos sobreviventes para
o estreito de Magalhães, sul da Patagônia. O Brasil através
de Duque de Caxias, ajudou a expulsa-lo para a Inglaterra, onde morreu.
O segundo, chamado pelos índios de “Faca Longa” reeleito
presidente dos Estados Unidos por exterminar os índios e desrespeitar
a Corte Suprema Americana, favorecendo ilegalmente os Colonos.
Kleber Galvêas
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