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VALE MAIS UMA HOMENAGEM? - A Tribuna, 03/03/2015.

 

A Vale contribui significativamente para o crescimento econômico do Espírito Santo. O início das suas atividades, no nosso Estado, aliviou um grande problema. Naquela época nossas cidades inchavam, com o abandono do campo, devido à quebra do café (ES, MG e RJ) e depois à do cacau (Sul da Bahia). Famílias inteiras se abrigavam debaixo de pontes e marquises nas cidades, e o apelo de crianças -- “Dona, tem sobra de comida?” -- era ouvido diariamente no portão das casas da Prainha.

O complexo siderúrgico em Tubarão e as empresas que surgiram em seu entorno aceleraram a transição para a atividade industrial no ES, minimizando o desastre na agricultura.

Embora o governador Cristiano Dias Lopes, na época, tenha afirmado que “A Vale só deixa para os capixabas o apito do trem”, em seu governo iniciou-se um crescimento sem precedente na nossa economia, inexpressiva e monótona desde o séc. XVI.

Até 1955, Vila Velha, com cerca de 30 mil habitantes, possuía apenas torrefação de café, fábrica de tamancos, biscoito, guaraná, bala e chocolate. O comércio se restringia aos poucos bares, quitandas e armazéns de secos e molhados. O porto de Paul, de Argolas e o de Pela Macaco eram considerados de Vitória. Não havia nenhum restaurante, e apenas o Hotel Tabajara. Um único salão de beleza cuidava das unhas e cabelos das vilavelhenses. A cidade se restringia à Prainha e Inhoá. Os dois distritos mais populosos eram Argolas e Barra do Jucu. Na Praia da Costa víamos mais bois soltos do que banhistas. Tudo cresceu. Ficamos grandes de repente.

Durante sua fase estatal, a Vale era muito questionada quanto ao valor do minério exportado. Quando Hilal inaugurou sua galeria na Praia do Suá, nos anos 1970, Guilherme Minassa apresentou uma interessantíssima instalação: um serviço de chá em fina porcelana inglesa, sobre mesa forrada com bela toalha, e tudo abarrotado de minério de ferro. Com a Vale privatizada, o preço do minério foi reajustado. O que representa conquista significativa da empresa, cobrada na instalação do artista há 44 anos. Guilherme é jornalista em Belo Horizonte.

Bem encaminhado o problema do preço do ferro, resta resolver o da poluição e os decorrentes do aumento espetacular da população de novos capixabas, que demandam mais escolas, hospitais, transporte, moradia, água, luz, lazer, cultura, mobilidade, espaços públicos...

Toda grande obra de empresas atrai muita gente. Depois de concluída a instalação da Usina 8 (2014), que temporariamente empregou milhares de operários, apenas 300 empregos foram criados (Informação da Vale em Audiência Pública no Colégio Marista de Vila Velha). No Estado a demanda por serviços públicos se multiplicou, exigindo enormes despesas e esforço político redobrado. Essas empresas recolhem IPI (imposto federal) e o Governo investe, no Espírito Santo, menos de 10% da arrecadação que leva daqui. Somos o penúltimo Estado da Federação, na lista de repasses federais.

Quando da primeira edição do projeto A VALE, A VACA E A PENA (1997), realizei, na entrada da minha galeria, uma homenagem à Vale. Exibi desenhos do artista Stanislaw Warchalowiski, funcionário aposentado da empresa, mostrando operários assentando trilhos, feitos enquanto ele trabalhava como topógrafo, na locação da Estrada de Ferro Vitória a Minas. Estes desenhos em bico de pena, logo após essa exposição foram doados à Vale pela família do artista. Integram o acervo do Museu Ferroviário onde figuram, com destaque, pois são ali documentos únicos no gênero artístico.

O jongo de congo -- “estimamos nossa empresa/ que abastece o mundo/ resolvendo o problema/ o amor será profundo” -- continuará sendo cantado: é oportuno. Da nossa maior empresa esperamos o melhor exemplo de sustentabilidade.

A Homenagem, quando foi instituída na corte francesa, era uma cerimônia, em que o homenageado se comprometia a empenhar a própria vida, na defesa de quem o distinguia. Quantas homenagens a Vale já recebeu dos capixabas?

Kleber Galvêas,  pintor  Tel. (27) 3244 7115   02/2015 [email protected]

www.galveas.com